quarta-feira, 17 de março de 2010

As mulheres da minha vida

Sou bom filho, enamorado de minha mãe desde o útero. Costumava achar que ela fosse invencível, mas sempre tive instinto de defendê-la de qualquer coisa. Meu pai, quando viajava, me dizia que era eu homem da casa e me dava a incumbência de zelar por ela e meus irmãos pequenos. Foi minha mãe o primeiro amor que tive. E de todos, o que não mudou ao longo da vida. Ainda acho ela linda, mas não a vejo mais como invencível, mesmo depois de um câncer. E ver que ela quase morreu por conta do câncer delimitou também minhas escolhas profissionais, eu ia estudar oncologia, mas minhas mãos hábeis no violão e numa boa cintura de mulher também se mostraram muito boas com instrumentos cortantes pra abrir gente.
Foi ela que me ensinou a amar o feminino, a “respeitar os ovários”, como ela diz. Ela que me ensinou a cozinhar, a tocar violão e gaita e a ser a pessoa certa quando eu encontrasse a minha mulher certa. É quando você deve mais que a vida a alguém, deve a personalidade. Deve quem você é. E ela faz as melhores tortas de maçã do mundo.
Também sou bom irmão, ou fui, nos pequenos seis anos que convivi com a minha irmã biológica. A minha primeira Ana da vida. Deu tempo de lhe ensinar alguns palavrões, um arremesso de Baseball e de ser seu par na quadrilha, matar insetos nojentos e cuidar pra que aquela pequena mulher que cabia a mim criar, já que o meu pai nunca estava em casa, tivesse uma vida confortável e fosse uma bailarina protegida no percurso de duas quadras até a escolinha de balé. Mas a hepatite levou a minha irmã e eu fiquei deprimido e fui até pra essas frescuras de psicólogo. Ficou o vácuo da ausência dela e eu não sabia o que fazer com aquele amor.
Então um dia o meu irmão bateu numa menina de cabelo assanhando, de tranças rebeldes. E a menina veio me dizer que ele batia nela todo dia. Tinha seis anos também. Tinha a roupa bagunçada, um livro na mão e um sorriso engraçado e banguela. Meu irmão tomou uma sova. Ela virou minha irmã. E primeira filha, melhor amiga, meu orgulho, minha preocupação, meu ódio sempre amor dobrado. E eu devo a ela um dos modos mais bonitos de gostar de alguém e se importar com outra pessoa de um jeito que corre na veia. A minha segunda Anna, porque Deus sabia que eu precisava de uma Anna na minha vida. De tudo nesses muitos anos de uma relação que a gente não sabe definir, a única coisa que não fizemos foi sexo.
Eu sempre via a Anna como a menina que veio me falar de confusão com o meu irmão. Anna é o meu negativo e o meu igual. Igual no gosto musical, mas o dela é melhor que o meu; igual no temperamento sereno e alegre, na vontade eterna de tomar sorvete que, a despeito de qualquer crise de garganta ou temperatura que não diminui nem passa. Ela tem esse sorriso em horas impróprias que faz o que é ruim não ser tão horrível. E tudo se torna muito claro atrás das lentes nos olhos perspicazes ávidos de leitura. A minha segunda Anna, que gosto de chamar de minha segunda chance é sempre uma entusiasta do que te faz crescer, e tem uma grandeza que me ensina a viver.
Dessa vez que vim a cidade dela a encontrei em casa com a tez corada de uma febre vinda de uma garganta comumente inflamada. Eu lhe disse que ela precisa rir menos, ai fica menos tempo de boca aberta pra entrar bactéria. Ela respondeu que rir valia à pena, e é esse o tipo de pessoa que ela é. Uma das minhas ex uma vez perguntou por que eu e a Anna nunca nos envolvemos, eu disse que era imune aos encantos do bico dela. A ex disse que é porque eu sou mais apaixonado que todos os outros. E se eu fosse imune aos poderes do bico dela, não teria chamado tanta atenção pra ele, certo?
E dessa vinda minha, foi a primeira vez que eu vi que a minha menina cresceu. Não que meu instinto protetor tenha diminuído por capaz que ela é de se defender sozinha, mas ela tem me surpreendido com objetivos mais adultos. Ela quer contas de água, luz, telefone e IPVA no nome dela. Não dá pra ser mais adulto que isso. Não que tenha passado qualquer de seus desejos infantis, mas tem alguma coisa no olho dela que me diz que ela é uma mulher agora, e que eu preciso me acostumar com isso. Também diz que a moleca ainda ta lá, tanto que a levei pra tomar grandes quantidades de sorvete - de limão e passei com ela na cacunda, como ela diz.
Também percebi na minha menina que eu fiz péssimo negócio quando a apresentei pro Chico Buarque. Ela cresceu ouvindo e isso moldou o caráter dela. Anna é de uma sensualidade das pequenas coisas. Gosta que os homens sejam homens pra ela ser mulher, palavras dela. Sente que gosta e fala, e isso ela me ensinou, no final das minhas cotas de canalha, aprendi mais a conquistar com ela do que ela comigo. Ela diz que o homem da vida dela é do tipo que ensina a criança a andar de bicicleta, coloca a prateleira na parede e faz amor no chão da cozinha, tudo no mesmo dia e antes do almoço. Eu acho graça da força da declaração. Mas reconheço que combina com essa Anna que a minha menina se tornou. Honesta com ela. Franca com todo mundo. Linda fazendo bico quando se distrai. A Anna é do tipo que dobraria o Sean Penn. Ou qualquer bad boy, tipo Russel Crowe e Johnny Deep que ela gosta tanto. Ela provoca uma reação nas pessoas, fica na pele da gente. Ela é um fogo que acalma, ela traz paz. Polariza a sua vida. Polarizou a minha e de outros caras que eu conheço. E eu tenho muito orgulho da mulher que ela é e de fazer parte disso.
Já contei aqui como eu conheci a minha esposa. Não é novidade. E como eu já disse aqui também, ela reúne sozinha todas as coisas que eu já amei em todas as mulheres que tive. É uma mãe incrível, uma péssima cozinheira, tem a nuca mais deliciosa que eu já vi e é uma cirurgiã pediátrica tão capaz que me envergonho de ter ficado menos sensível com os meus pacientes. Ela se envolve. E me surpreende com a calma nas horas difíceis e com um companheirismo que eu quase não aprendo a conviver. E ela tem o dom de me fazer falar, de me fazer dormir bem a noite e sou capaz de qualquer coisa pra fazer ela dormir bem a noite. E ela faz tudo isso com aqueles olhos verdes enormes. Eu amo você, Ruiva.
A terceira Anna da minha vida ainda não trocou os dentes e me ensina que eu não estava tão errado sobre o amor, mas que amar não é tudo. É preciso saber soltar pipa, ser bom professor de natação, saber músicas sobre coelhos em árvores pra amarrar cadarços e músicas que adultos não ouvem. Ela me faz rever conceitos preconceituosos sobre adultos vestidos de dinossauros roxos, não é só bizarro, é chato também. Sou um pai orgulhoso de uma filha que não gosta do Barney. E ela gosta de jogar bola comigo. E eu me vesti de príncipe encantado no aniversário dela porque ela não parava de chorar. Eu perdi o prumo quando adoeceu da mesma hepatite que levou a minha primeira Anna e que a segunda Anna também teve e escapou, mas isso não me tranqüiliza. E de tudo o que eu faço no meu dia, o que mais vale a pena é a ronda noturna pra ver se ela ta dormindo bem, a minha bebê que não gosta da Xuxa e escuta Sinatra como canção de ninar. Vai crescer muito pior do que eu. E melhor também. Meu futuro há de ser tempestuoso.

5 Vivas à Princesa!:

Mia disse...

Sempre tem alguém que nos ajuda a aprender e se deixa aprender por nós após uma perda...
Guarde as suas Annas, homem. É raro saber distinguir um mero conhecimento de cumplicidade e vivência.

Bj

Estrelinha =) disse...

Um dos textos mais lindos que lá li... Não que eu seja "A leitora"... mas a sensibilidade com que foi escrito revela muito...

clar issa disse...

lindo, lindo, liindo.

caramba, muito lindo! (:

AnaLua! disse...

Simplesmente um momento de êxtase nessa minha manhã cinzenta aqui no sul...nem sei se você lê esses comentários, mas vou te dizer: queria agradecer você pelo belo presente que me deu hoje! sim, porque eu realmente estava desacreditada que ainda houvesse um único ser masculino na face da terra que tivesse assim uma alma tão sensível, que acreditasse na força de uma verdadeira amizade entre um homem e uma mulher, que gritasse o seu amor pela seus esposa aos quatro ventos, que amasse sua filha e estivesse fazendo dela um ser-humano de verdade... Não estou sendo baba-ovo, puxa-saco ou sei lá qual nome vocês dão prá isso...simplesmente estou encantada! Agora sim, depois da leitura do seu texto posso dar continuidade ao meu dia de trabalho, meus sonhos, minha vida! Seja lá quem você for, saiba que tem meu carinho, meu respeito, minha admiração!!!! bom dia prá vc tb!

wanterlust disse...

vivi!